AO no MIPIM 2026
- 30 de mar.
- 4 min de leitura
Arquitetura como mediadora entre investimento, técnica e cidade.
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Neste mês, Cannes voltou a se tornar um observatório privilegiado das transformações que atravessam o desenvolvimento urbano contemporâneo. Realizado no Palais des Festivals, o MIPIM reúne anualmente investidores, incorporadores, governos e arquitetos para discutir o futuro das cidades. Mais do que uma feira imobiliária, o evento funciona como um espaço de leitura das forças que hoje moldam o território: sustentabilidade, tecnologia, novas economias urbanas e formas emergentes de convivência entre cidade, natureza e infraestrutura.

Entre os diversos estandes, alguns chamaram atenção pela consistência com que articulavam arquitetura, estratégia territorial e narrativa de país. A presença da Albânia foi particularmente notável. Sob o tema Soundscapes of Albania, o país apresentou 83 projetos estratégicos voltados principalmente ao turismo sustentável e ao desenvolvimento da costa jônica e adriática, incluindo iniciativas de grande escala como a marina de Vlora e novos empreendimentos na Riviera Albanesa. Mais do que uma coleção de projetos isolados, o conjunto revelava uma visão clara de território, onde arquitetura, infraestrutura e paisagem aparecem como instrumentos de transformação econômica.
A Turquia também apresentou uma participação sólida, destacando a força de seu setor imobiliário e a relevância da arquitetura como vetor de projeção internacional. Entre os exemplos, projetos como o Ion Riva, em Istambul – desenvolvido por escritórios como Snøhetta, BIG e MVRDV – evidenciam uma abordagem integrada de urbanismo costeiro, combinando habitação, cultura, paisagem e infraestrutura em um novo modelo de bairro. Assim como no caso albanês, a presença turca reforça a ideia de que a arquitetura vem sendo utilizada como ferramenta estratégica para estruturar territórios e atrair investimentos de forma coordenada.
"Projetar hoje significa articular cidade, investimento e tecnologia em um mesmo gesto arquitetônico." – Greg Bousquet
Prêmio, diálogo e escuta
A participação da AO no MIPIM foi muito além da celebração da vitória do empreendimento MARAEY, em Maricá (RJ), no MIPIM Awards 2026 – o projeto leva a assinatura da AO na arquitetura do hotel JW Marriott e das residências associadas ao complexo. A ARCHITECTS OFFICE compôs ainda o espaço Brazilian Contemporary Architecture, organizado pelo programa Built by Brazil da AsBEA, ao lado de escritórios como Bernardes Arquitetura, Isay Weinfeld e FGMF, apresentando ao público global a produção arquitetônica contemporânea brasileira. Foi nesse contexto que promoveu uma conversa sobre o papel da arquitetura na mediação entre mercado, técnica e cidade.

Segundo Greg Bousquet, fundador da AO, a arquitetura contemporânea precisa operar na intersecção entre viabilidade econômica, responsabilidade técnica e desenvolvimento urbano. Mais do que uma disciplina formal, ela se torna um instrumento estratégico capaz de alinhar diferentes escalas de decisão, do desempenho construtivo à qualidade do espaço público. “Hoje, projetar significa articular cidade, investimento e tecnologia em um mesmo gesto”, afirmou Greg. “Quando essas dimensões não são pensadas juntas, o resultado dificilmente gera valor duradouro para o território.”
Dentro desse enquadramento, o WTC Biotic, desenvolvido pela AO no masterplan do Carlo Ratti Associati, foi apresentado como estudo de caso. Concebido como o projeto âncora do novo Parque Tecnológico de Brasília, o complexo propõe uma estrutura urbana permeável que integra residências, escritórios, hotel, comércio e espaços públicos. Em vez de se impor como objeto isolado, a arquitetura organiza fluxos e atividades por meio de um plano contínuo que acompanha a topografia e cria uma malha urbana gradual, conectada à paisagem.
“Arquitetura hoje não pode ser apenas resposta formal – ela precisa estruturar relações entre território, técnica e vida coletiva.” – Greg Bousquet
A sustentabilidade, nesse contexto, não aparece como uma camada tecnológica adicionada posteriormente, mas como parte da própria lógica espacial do projeto. Estratégias passivas, como orientação solar, ventilação natural, brises e terraços sombreados, trabalham em conjunto com sistemas ativos de captação de água, geração de energia e coberturas vegetadas. À medida que a arquitetura se aproxima do solo, incorpora vegetação e percursos sombreados, criando continuidade entre infraestrutura urbana e paisagem. Para Sávio Jobim, Diretor de Arquitetura da AO, esse tipo de abordagem aponta para um novo paradigma de projeto: “Sustentabilidade real não está apenas nos equipamentos, mas na forma como o edifício se organiza, se implanta e se relaciona com o território.”
Convidado para o papo pela AO, Carlo Ratti, diretor do MIT Senseable City Lab e curador da Bienal de Arquitetura de Veneza 2025, ampliou essa reflexão para o campo do urbanismo contemporâneo. Foram discutidos temas como o papel dos distritos de inovação nas estratégias globais de desenvolvimento urbano, o conceito de plataformas urbanas abertas e o desafio de inserir novas centralidades em cidades com forte identidade histórica, como Brasília.



“Sustentabilidade real não está apenas na construção, mas na forma como o projeto se organiza e se relaciona com o território.” – Sávio Jobim
Internacionalização e negócios
O MIPIM também funcionou como um espaço comercial estratégico. A atuação do Núcleo de Novos Negócios da AO concentrou-se justamente nesse campo, aproximando o escritório de incorporadores, investidores e parceiros internacionais. Segundo Tabata Irrasabal, Diretora de Novos Negócios da AO, encontros como esse revelam uma mudança importante na forma como a arquitetura é percebida no mercado global. “Cada vez mais, investidores e desenvolvedores buscam escritórios capazes de pensar o projeto não apenas como um objeto arquitetônico, mas como parte de uma estratégia territorial e econômica mais ampla”, explica Tabata.
As conversas durante o evento incluíram trocas com equipes de grandes escritórios internacionais, como ODA Architecture (Nova York), PCA-Stream (Paris) e Herzog & de Meuron (Basileia) – com quem a AO já iniciou colaboração no projeto de tropicalização de um edifício assinado por eles nos Jardins, em São Paulo. Para Tabata, esse tipo de articulação evidencia um movimento crescente de cooperação internacional entre arquitetos. “Projetos urbanos hoje exigem repertórios técnicos e culturais cada vez mais diversos e profundos. As parcerias permitem justamente ampliar essa capacidade de resposta”, diz ela.
“Cada vez mais, investidores e desenvolvedores buscam escritórios capazes de pensar o projeto não apenas como um objeto arquitetônico, mas como parte de uma estratégia territorial e econômica mais ampla.” – Tabata Irrasabal
Em um momento em que o desenvolvimento urbano atravessa mudanças profundas – impulsionadas por desafios ambientais, transformações tecnológicas e novas dinâmicas econômicas – o MIPIM reforça a importância da arquitetura como campo de mediação entre diferentes agentes e escalas. Para a AO, essa atuação parte de uma convicção clara: a arquitetura não é apenas forma, é uma ferramenta estratégica capaz de articular pessoas, investimento e território.







