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A coexistência entre eficiência, sensibilidade e operação na hotelaria

  • 16 de jul.
  • 4 min de leitura


O projeto de interior design desenvolvido pela AO para a rede hoteleira Accor nasce de uma investigação sobre os limites e as possibilidades da hotelaria econômica, ao questionar a neutralidade como resposta dominante em sistemas padronizados. Resultado de um concurso internacional que reuniu cinco escritórios convidados, entre eles a AO, o projeto se insere em um contexto de reflexão ampliada sobre o futuro da marca. A partir da escuta ativa desse modelo, arquitetura, interiores e operação passam a coexistir como um sistema integrado e com transições leves. Mais do que responder a um programa, o projeto busca interpretar como o espaço pode acolher, provocar e envolver, transformando a experiência cotidiana em algo perceptível, sensorial e significativo.


Biennale di Venezia


Como transformar restrições em potência projetual?


A fenomenologia surge como abordagem estruturante, orientando o projeto a partir da experiência vivida – não apenas da dimensão física do espaço, mas da forma como ele é percebido, sentido e apropriado ao longo do tempo. Nesse processo, o design deixa de ser apenas solução e passa a ser ferramenta crítica, capaz de investigar, propor e materializar novas relações entre corpo, uso e ambiente.


A análise inicial identificou um descompasso entre a consistência da marca e a ausência de uma experiência que pudesse instigar o pertencimento e funcionar como diferencial de marca. A partir disso, o projeto propõe deslocar o foco da repetição convencional do setor para a construção de uma jornada integrada, onde cada ambiente responde à sua função, mas principalmente à forma como é sentido e vivido. O espaço passa a ser concebido como uma sequência de atmosferas que se entrelaçam, promovendo transições sutis entre intensidade e recolhimento, entre exposição e intimidade. Essa lógica permite que o usuário não apenas ocupe o ambiente, mas o reconheça, criando vínculos que ultrapassam a funcionalidade imediata.


A autenticidade estrutura o projeto como princípio e ferramenta, entendida como coerência entre uso, material e percepção. Em um contexto marcado pela homogeneização dos espaços, surge como busca por experiências mais essenciais e conectadas ao real. O projeto opera a partir do essencial, equilibrando sensorialidade e responsabilidade material. Cada elemento é pensado para revelar sua natureza, construindo uma experiência clara, onde o usuário reconhece o espaço e se reconhece nele.



É possível integrar operação e arquitetura?


A organização da planta parte de um gesto preciso: reinterpretar o núcleo central – o core – como elemento ativo da experiência. Em vez de um vazio genérico, ele é fragmentado em unidades programáticas que revelam e estruturam o funcionamento do hotel. Essas “caixas” materializam os usos específicos e tornam legível o espaço, permitindo que o usuário compreenda intuitivamente onde está e como se deslocar. A circulação deixa de ser apenas passagem e passa a integrar a experiência, conectando diferentes ambientes por meio de variações de escala, luz e materialidade. A comunicação visual é parte constitutiva dessa lógica: mais do que orientar, ela traduz o raciocínio do projeto, tornando visíveis as escolhas e reforçando a legibilidade dos espaços. Atua como linguagem que conecta o usuário à experiência, explicita a materialidade e constrói uma leitura intuitiva e contínua do ambiente.


No térreo, o projeto propõe um campo híbrido e flexível, onde os programas não são fixos, mas coexistem e se podem transformar ao longo do tempo. O bar e o check-in se integram em um único dispositivo espacial, capaz de acolher diferentes dinâmicas – do trabalho coletivo durante o dia a um ambiente mais introspectivo à noite. A cozinha aberta revela os processos internos e aproxima hóspedes e equipe, promovendo transparência e valorizando o trabalho como parte da experiência. Ao eliminar barreiras e integrar usos, o projeto propõe uma nova forma de convivência, onde o espaço incentiva encontros, trocas e permanências.


Nos pavimentos superiores, a investigação se desdobra na forma como o projeto interpreta a transição entre o coletivo e o individual. Os corredores, frequentemente tratados como espaços residuais, são ressignificados como elementos de orientação e experiência. Através de variações cromáticas e táteis, o percurso conduz o usuário de atmosferas mais intensas para ambientes de maior recolhimento, promovendo uma desaceleração gradual. Esse gesto, ao mesmo tempo sutil e preciso, reforça a ideia de que o espaço pode guiar sensações e comportamentos.


As unidades habitacionais são concebidas a partir de uma lógica de síntese: máxima eficiência com mínima complexidade. O volume do banheiro organiza o espaço e concentra infraestrutura, enquanto o mobiliário, integrado e multifuncional, resolve diferentes necessidades em um único sistema. Materiais simples e acessíveis são utilizados de forma consciente, não apenas por questões de custo, mas como expressão estética. Cada elemento é pensado para durar, adaptar-se e responder ao uso cotidiano, reforçando a ideia de que autenticidade está na clareza entre intenção e execução.



Quando o método se torna linguagem?


A materialidade é tratada como instrumento de investigação. Cada material é analisado por suas propriedades sensoriais e sua durabilidade, integrando desempenho, percepção e sustentabilidade. Ao mapear essas relações, a AO propõe uma forma de projetar que não apenas idealiza, mas concretiza uma experiência coerente e mensurável.


A racionalização dos sistemas construtivos reforça essa lógica. A adoção de elementos únicos, como o sistema de iluminação replicável ou o mobiliário modular, demonstra como é possível integrar eficiência e identidade. Esses dispositivos permitem que o projeto seja adaptado a diferentes contextos sem perder sua essência, garantindo consistência global e flexibilidade local.


Ao entrelaçar programa, planta e materialidade, o projeto concebe um modelo que transforma restrições em diretrizes. Não se trata apenas de otimizar um sistema existente, mas de desvendar novas possibilidades dentro dele, propondo uma arquitetura que escuta, interpreta e responde de forma sensível às condições impostas.








 
 
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