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Rewilding: quando a natureza passa a ser agente do projeto

  • há 9 horas
  • 6 min de leitura

Biennale di Venezia

E se projetar a paisagem significasse não desenhá-la por completo? E se, em vez de controlar cada forma, espécie ou percurso,  o projeto pudesse criar condições para que os processos naturais – água, vento, vegetação, fauna e tempo – conduzissem a transformação de um lugar? Nessa inquietação, surge uma questão central: quais condições podemos criar para que o ato humano funcione como suporte, em vez de impor uma forma?


Essa investigação guiou o AO Factory - Rewilding: coexistência entre projeto, natureza e paisagem, realizado na Casa AO neste mês. Conduzido por Greg Bousquet, Sávio Jobim, Carolina Passos e Julia Lobo, o encontro apresentou parte de uma pesquisa viva desenvolvida internamente sobre processos de regeneração e sobre as relações e interlocuções entre arquitetura, paisagismo, urbanismo e os sistemas naturais.


A pesquisa propõe uma mudança de perspectiva: deixar de compreender a natureza como elemento a ser inserido no projeto para reconhecê-la como um processo ecológico existente, dinâmico e autônomo.





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O que significa devolver protagonismo à natureza?


Rewilding não significa reconstruir uma imagem idealizada de uma paisagem anterior à presença humana. Também não se resume a acrescentar vegetação como suporte aos espaços construídos. A questão está em criar condições para que processos naturais recuperem autonomia e possam continuar transformando o território para uma lógica de coexistência ao longo do tempo.


Essa perspectiva desloca o projeto baseado no controle antropocêntrico para outra, orientada pela coexistência. O projeto deixa de determinar integralmente o resultado e passa também a construir suportes para o natural e orgânico acontecer. A intervenção humana continua presente, mas muda de posição: em vez de definir previamente o desenho e a forma que a natureza deve assumir, pode preparar o solo, abrir caminhos para a água, estabelecer condições de micro e macro drenagem, criar continuidade entre ecossistemas ou simplesmente reconhecer onde não intervir. O projeto passa a perguntar menos “qual forma queremos produzir?” e mais “que suporte podemos oferecer para que outros agentes integrem o processo e também desenhem essa construção?”.


Renaturalização do rio Aire, Atelier Descombes Rampini + Superpositions, Genebra (Suíça)


Pôde ser observado em um estudo de caso sobre a  renaturalização do rio Aire na Suíça, que em vez de desenhar precisamente suas novas margens, os projetistas criaram um sistema baseado em uma malha hexagonal orientada pela topografia, que permitiu que o próprio movimento da água definisse ao longo do tempo o novo desenho de suas margens . A erosão, tradicionalmente compreendida como algo a ser contido, tornou-se parte do processo de reconstrução da paisagem natural.


O exemplo revela uma mudança fundamental: projetar menos o objeto e focar mais no processo e na construção de condições para sua transformação.




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Do objeto ao processo


Durante a modernidade, cidade e natureza foram tratadas como campos separados. A natureza aparecia como fundo, ornamento ou matéria a ser guiada e controlada. Pavimentar, retificar, delimitar e estabilizar eram formas de afirmar o domínio humano sobre o território e a própria construção da paisagem.


No contexto do Antropoceno de Bruno Latour, essa separação, sociedade e natureza, se mostra cada vez mais frágil. Enchentes, ilhas de calor, perda de biodiversidade e eventos climáticos extremos evidenciam que edifícios e cidades não existem fora dos sistemas naturais: são parte deles.


A partir de referências como Gilles Clément, Lois Weinberger e Stefano Mancuso, a pesquisa apresentada no AO Factory discutiu justamente a possibilidade de substituir essa oposição por uma visão mais integrada. O natural deixa de ser um cenário inerte e passa a participar das decisões de projeto.


Isso significa interpretar água, vento, solo, vegetação e fauna não apenas como condicionantes técnicas, mas como agentes de um processo capaz de transformar continuamente os espaços que habitamos.


A cidade de Paris oferece um exemplo de como esse princípio pode atravessar a escala urbana. Em iniciativas conduzidas pela prefeitura, pequenas porções de solo conectadas à infraestrutura viária, como canteiros centrais, jardins e trechos de calçadas,  antes com a vegetação rigidamente controlada passaram a poder ser cultivadas pelos próprios moradores. Em vez de estabelecer um projeto  paisagístico único, o poder público constrói uma estrutura mínima de atuação, com orientações de manejo, acessibilidade e restrição ao uso de pesticidas, e permite que diferentes formas de vegetação e apropriação surjam ao longo do tempo. A transformação acontece a partir de uma combinação entre planejamento, comunidade e processos naturais.


Essa lógica também se relaciona a transformações urbanas mais amplas em curso em Paris, onde redução do espaço destinado aos carros, ampliação das áreas caminháveis, proximidade entre usos e presença crescente da vegetação passam a operar de maneira articulada. A natureza deixa de aparecer apenas como uma camada paisagística e passa a participar de uma discussão sobre mobilidade, microclima, ativação e comércio local, qualidade do espaço público e modos de viver a cidade.




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Permanência não significa imobilidade


Nesse contexto, a questão deixa de ser apenas quão permeável e verde um projeto é e passa a ser: qual a qualidade do espaço que ele devolve para que a vida aconteça? Inspirada pelo conceito de Terceira Paisagem, de Gilles Clément, essa abordagem reconhece o valor de áreas  aparentemente residuais: terrenos baldios, áreas abandonadas ou subutilizadas, ou mesmo espaços que escaparam temporariamente do planejamento.


São lugares onde espécies espontâneas encontram condições para surgir e onde a biodiversidade pode se desenvolver justamente pela ausência de um controle excessivo.


Isso não significa abandonar a responsabilidade projetual. Pelo contrário. Exige uma curadoria meticulosa sobre onde intervir, onde criar suporte e onde permitir que processos existentes continuem acontecendo.


Projetar passa, então, a incluir a capacidade de identificar espaços que não precisam ser diretamente transformados. O “descuido” pode ser preciso. A espontaneidade pode coexistir com rigor. E a arquitetura pode aprender a reconhecer que permanência não significa imobilidade.

O bosque dos álamos, Gilles Clemént




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Da cidade aos interiores



Se rewilding parece, à primeira vista, uma discussão essencialmente territorial, a AO buscou investigar como seus princípios podem atravessar diferentes escalas de atuação.


No urbanismo, podem orientar análises e definições  cartográficas e ambientais, implantação de redes de infraestrutura verde e azul, soluções baseadas na natureza de macro e micro drenagem , recuperação de biomas e estratégias de conexão entre áreas verdes e livres.Na arquitetura, podem incentivar edifícios mais permeáveis e integrados à paisagem, capazes de trabalhar com ventilação natural, água, vegetação, sombra e superfícies férteis como partes do próprio sistema construído.


Mesmo em ambientes internos, a reflexão permanece pertinente. Abrir uma janela e permitir a entrada do vento, reduzir a dependência de sistemas artificiais de iluminação e climatização ou construir uma interface mais direta entre dentro e fora também são formas de reconsiderar a separação entre arquitetura e natureza.


Não se trata de reproduzir artificialmente um ecossistema onde ele não pode existir. Trata-se de investigar, em cada escala, qual pode ser a interface mais gentil entre o projetado e os sistemas vivos que já atravessam esse lugar.







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Investigar antes de projetar


Para a AO, incorporar essas questões à prática significa aprofundar algo que já está na origem de seu método: investigar antes de propor.


Essa investigação é também parte de uma estrutura de conhecimento existente dentro do escritório. O núcleo de Território e Paisagem da AO reúne profissionais especializados em urbanismo e paisagismo, que  atuam de maneira transversal aos projetos, aproximando leitura territorial, pesquisa e conceito à  prática projetual. Para além dessa investigação, o núcleo de pesquisa também integra o desenvolvimento do projeto cartográfico Forest Gens, no qual busca ampliar o entendimento da paisagem e território da Pan-Amazônia. 


Apresentado como Genealogia da Floresta, o projeto Forest Gens parte justamente de uma leitura crítica que questiona a separação rígida entre natureza e sociedade. Desenvolvido pela POLES | Political Ecology of Space em colaboração com a ARCHITECTS OFFICE, o projeto constrói cartografias críticas, a partir de dados e mapeamentos arqueológicos, sensoriamento remoto e investigação territorial para revelar a Amazônia como uma floresta historicamente habitada, cultivada e transformada por saberes ancestrais, a coexistência entre o homem e a natureza.



Forest Gens: interrelações humano-natureza na Amazônia, POLES | Political Ecology of Space, em colaboração com Architects Office



O Núcleo de Pesquisa em Território e Paisagem da AO investiga as transformações do território contemporâneo a partir da interseção entre arquitetura, urbanismo, paisagismo, ecologia e cartografia. O Núcleo desenvolve pesquisas que articulam leitura territorial, produção de dados, representação cartográfica e experimentação projetual como instrumentos para compreender processos complexos de transformação e imaginar outras formas de relação entre sociedade, cidade e natureza. Entre suas frentes de investigação estão as relações entre urbanização e processos ecológicos, estratégias de rewilding, cartografias críticas e novas tecnologias de representação e análise territorial. Seus trabalhos incluem pesquisas autorais e colaborações com instituições e pesquisadores nacionais e internacionais, resultando em projetos cartográficos, consultorias, investigações e publicações. Mais do que produzir representações do território, o Núcleo busca explorar a cartografia e a pesquisa como instrumentos de investigação e construção de conhecimento, capazes de tornar visíveis relações, conflitos e dinâmicas que atravessam a paisagem contemporânea.


Rewilding exige conhecimento específico do território. Quais espécies pertencem àquele bioma? Por onde a água circulava antes da urbanização? Onde estão os pontos de alagamento? Que fragmentos vegetais ainda existem? Como o relevo pode colaborar com a drenagem? Que plantas surgem espontaneamente? Quais relações ecológicas poderiam ser restabelecidas?


Cartografias, levantamentos, inventários e pesquisas passam a funcionar não mais como documentos de diagnóstico, mas como instrumentos de projeto. O desenho surge em sinergia com os processos naturais.. 


Assim, o conceito de rewilding passa por investigar como a cidade e a arquitetura podem deixar de apenas incorporar a natureza para coexistir com ela. Significa compreender que um projeto não finaliza com a obra,  e que paisagens não são cenários  acabados: crescem, desaparecem, reaparecem, migram e se reorganizam. O papel da arquitetura não é determinar como acontecem todas essas transformações, mas se integrar a um processo para que elas possam acontecer.














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